PRÓLOGO

—Malvados perros!

Os conselheiros entreolharam‐se, surpreendidos com o brado insultuoso do jovem rei, que contrariava os seus habituais modos afáveis.

Lera e relera longamente a mensagem acabada de chegar, sem que se visse centelha de emoção nos olhos azuis que devoraram as linhas, embora a tez de leite de Filipe III de Portugal, IV de Espanha, tivesse enrubescido ao inteirar-se do que se ocultava de todos no fino papel, coberto por caligrafia aprimorada, que lhe trazia a perturbadora nova da desobediência dos seus súbditos.

Ergueu-se, e o gesto foi repetido por todos os fiéis cortesãos, intimidados pela majestade de tão grande senhor, cujos domínios arrebatavam cantos distantes do mundo inteiro. O monarca abandonou a sala do despacho, seguido pela numerosa corte que nunca despegava do seu manto, até à câmara de audiências da ala mais privada. Uma vez chegado à porta, dispensou‐os com um gesto rápido da mão, pois nem para falas estava disposto, ou assim parecia, até o silêncio ser cortado com um mando:

— Chamai Don Gaspar de Guzmán. Que venha, de onde quer que esteja.

Entesaram‐se os lábios ao ouvir o nome do valido, o conde‐duque de Olivares, que tomara conta da cabeça do rei com o seu insidioso alvitre, o que lhe valera uma expedita ascensão na corte e a inveja de quase todos. O conde de Olivares, que o rei fizera duque de Sanlúcar Mayor, era o responsável pelas recentes alterações introduzidas no império para que Filipe fosse, de facto, o Rei Planeta a que aspirava, com a restauração do prestígio de seu avô, D. Filipe I de Portugal, e a plena absorção dos diferentes reinos na monarquia de Espanha.

Palácio do Alcácer, Madrid
Primavera de 1631

Esperou que se afastassem, enquanto afagava com impaciência o longo bigode louro, e foi sentar‐se à secretária, entregue a pensamentos.

O rei mais poderoso do mundo andava inquieto.

Puxou para o centro da mesa o mapa do império que lhe calhara em herança e estudou‐o demoradamente... um império onde o Sol nunca se punha, expressão grata ao seu avô, que sonhara converter a terra inteira ao catolicismo e lutara arduamente contra o avanço dos protestantes na Europa, subjugando partes do continente.

O actual monarca unia vinte e quatro territórios sob a sua Coroa, que incluíam os reinos de Portugal, Aragão, Navarra, Castela e Leão, só na península, mas que se espraiavam pela Flandres, com parte da Holanda ocupada por Madrid, por Milão e Nápoles e até ao Novo Mundo. Mas pouco se animava com as vastas manchas sob poder da dinastia espanhola dos Habsburgo, da Casa de Áustria, pois cresciam os empecilhos, as renitências locais e as guerras que pulverizavam os seus exér‐ citos em conflitos sem fim à vista, custos exorbitantes que depauperavam o tesouro de Madrid e traziam descontentamento popular nas várias partidas do império.

A guerra, que havia quase trinta anos dilacerava a Europa, unia Espanha ao imperador do Sacro Império Romano‐Germânico, Fernando III, o mais elevado representante católico na Europa, contra os protestantes dos Estados germânicos, da Suécia, da Dinamarca e das sete Províncias Unidas dos Países Baixos, que se haviam declarado uma república contra o longo domínio espanhol de muitas décadas e já eram uma potência dos mares.

França era outra ameaça latente. Apesar de Paris lutar contra os protestantes dentro das suas próprias fronteiras e de Luís XIII ser casado com Ana de Áustria, irmã do monarca espanhol, o rei francês e o seu homem‐forte, o cardeal Richelieu, queriam a hegemonia de França na Europa, um sonho que só alcançariam se invertessem o domínio da poderosa Casa de Áustria, que se espraiava até ao leste do continente.

Madalena Sá Fernandes junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 23 de novembro, pelas 21h00. A autora traz "Leme", o seu primeiro livro, editado pela Companhia das Letras.

Para se inscrever no encontro basta preencher o formulário que se encontra neste link. No dia do encontro receberá um e-mail com todas as instruções para se juntar à conversa.

Madalena Sá Fernandes nasceu em Lisboa, em 1993. Licenciou-se em Línguas, Literaturas e Culturas pela Universidade Nova de Lisboa e escreve crónicas no jornal Público.

Este livro apresenta "o relato da vivência de uma rapariga que assiste, durante anos, à erosão dos pilares que sustentam as ligações humanas: vê a mãe subjugada à violência do homem com quem mantém uma relação amorosa disfuncional; vive na pele a distorção dos papéis desempenhados por pais e filhos; alimenta-se da solidão para ultrapassar um quotidiano de medo e fúria; disputa um lugar só para si no meio do caos familiar; aprende a reconhecer o consolo das pequenas vitórias; e, por fim, reconstrói-se a si e às suas memórias", é referido na sinopse.

"Nenhuma criança conhece de antemão os nomes das coisas, mas todas as crianças reconhecem instintivamente o perigo. Para a protagonista desta história, o perigo tem o nome de um homem, e é sinónimo de obsessão, desequilíbrio, solidão, desamparo, poucas certezas e muitas dúvidas", pode ler-se.

Assim, "Leme" é entendido como "um golpe de escrita para regressar à vida. Uma cintilação plena de vida e um soco no escuro que nos engole: eis um livro que aponta diretamente aos limites do bem e do mal".

Os holandeses eram o maior espinho cravado na garganta do rei de Espanha, pois não se limitavam à guerra dentro das terras europeias e atacavam os domínios dos Habsburgo em todo o mundo. Desde a união das coroas de Portugal e Espanha, as ofensivas incluíam os territórios que integravam o Império Português.

Anos antes, as Províncias Unidas apoderaram‐se da Bahia, no Brasil, depois da tomada de Ormuz pelos anglo‐persas, o que obrigara o monarca espanhol a chamar os portugueses para acudirem à terra brasileira. Recuperada a Bahia, não haviam terminado os ataques ao Brasil, onde já florescia a colónia da Nova Holanda, em Pernambuco, e às possessões portuguesas em África e na Ásia.

Nem os territórios peninsulares, mais próximos do governo central, traziam ao rei qualquer ilusão de unidade, com o descontentamento que grassava contra a prepotência de Madrid sobre os outros reinos ibéricos.

Portugal era um caso à parte, ou assim lhe parecera quando lhe fora colocada a coroa sobre os cabelos dourados na subida ao trono, num dia de júbilo e consagração havia dez anos.

A união das coroas de Portugal e Espanha ocorrera há mais de cinquenta anos, em 1580, mas não era o caminho de rosas que lhe haviam descrito. Na altura da anexação, haviam sido dadas garantidas de autonomia por seu avô, D. Filipe I, consagradas no Estatuto das Cortes de Tomar perante o rei, de que se manteriam as instituições existentes, com homens portugueses aos comandos, e de que Portugal não faria parte das guerras de Espanha, mantendo o estatuto de reino.

Se era certo que Madrid nunca cumprira inteiramente o acordo, pois estacionara os seus exércitos em Portugal e obrigara a Armada Portuguesa a participar na desastrosa «Grande Armada» contra Inglaterra, que os ingleses, por ironia, baptizaram de Invencível, também era verdade que os portugueses se mostravam renitentes a cumprir o que lhes era pedido pelo rei nos últimos anos, por entenderem que violava o Estatuto das Cortes de Tomar.

Porém, D. Filipe III carecia desesperadamente de dinheiro e de homens para manter o império de pé.

Urgia a plena absorção de Portugal por Espanha, rasgando, de uma vez por todas, o estatuto aprovado em Tomar, para acabar com a autonomia e o privilégio de permanecer como reino, passando gradualmente a mera província... era a política defendida pelo conde‐duque de Olivares, que o monarca se dispunha a prosseguir cegamente, ofuscado pelo brilho do poder absoluto, com a graça de Deus, que servia com fervoroso zelo.

Não podia ser imposta de uma vez, para não reavivar ressentimentos e evitar revoltas, mas, paulatinamente e com algum tacto, através da integração de mais nobres portugueses nas estruturas militares e políticas de Espanha e do afastamento de figuras prestigiadas que pudessem unir o povo contra D. Filipe III. Mais subtil era a realização de casamentos entre a alta nobreza dos dois reinos, conforme Olivares defendia.

O rei estendeu as pernas e suspirou longamente, a avaliar o que julgava saber sobre aquele povo. Dispunha de bastos fidalgos portugueses ao seu serviço em Madrid, no Conselho de Portugal, mas menos seguro se via com os que não faziam ondas, nem se manifestavam de forma estrepitosa, aparentemente permitindo que o processo de união seguisse o seu curso.

Era um povo muito mais manso do que outros súbditos que faziam estremecer o Império Habsburgo, mas, ainda assim, não tão disposto a acatar o seu mando como lhe haviam garantido muitos portugueses e alguns membros do seu próprio conselho... Era um tormento fazê‐los pagar os impostos, como voltara a ficar patente na carta que acabara de receber de Lisboa, com novas queixas de dificuldades na colecta dos tributos devidos. Três anos antes, o imposto sobre o linho fiado levara a levantamentos na cidade do Porto. A Revolta das Maçarocas obrigara as tropas a intervir, mas a paz regressara depois.

Havia, naquele povo, marcas que ainda não deslindara, muito mais afastado daquela gente do que fora seu avô, D. Filipe I, cuja mãe portuguesa, a infanta Isabel, filha do rei D. Manuel, lhe transmitira ligação aos usos e costumes da terra ocidental.

O actual monarca nem tinha as amarras do sangue próximo a Portugal, nem o poderio do mais famoso comandante militar de D. Filipe I, o duque de Alba, que irrompera pela terra portuguesa com a brutalidade lendária que lhe fizera o nome nos outros domínios sob a coroa de Espanha, apesar do direito dinástico do rei à coroa de Portugal, por ser descendente do rei D. Manuel.

Nem só de intervenção pelas armas e dos direitos de seu avô se fizera a integração do reino na monarquia ibérica, cogitava o soberano, bem conhecedor dos subornos com que se havia conquistado muita da alta nobreza e do alto clero de Portugal nos dois anos que haviam passado entre a morte do rei D. Sebastião, em Marrocos, e a entrada de D. Filipe I como rei, e que continuavam bem comprazidos com as elevadas mercês e privilégios que os monarcas espanhóis sempre haviam derramado sobre quem os seguisse.

D. Filipe III fora apenas uma vez a Portugal, para ser jurado príncipe herdeiro, e não fazia tenções de lá voltar... Não faltavam portugueses com proximidade ao rei e muito grados ao monarca nos dois reinos, mas havia alguma nobreza menos definida em Portugal, que não formava um grupo coeso e vivia dispersa nos seus palácios, mais dada a uma vida de sossego.

No topo da hierarquia estava o duque de Bragança, recolhido na sede do seu ducado, em Vila Viçosa, com relações cordiais com Madrid e honras e estatuto de quase soberano, pelo sangue de vários reis de Portugal que lhe corria nas veias.

D. Filipe III desviou os olhos do mapa para os centrar no seu valido, que entrava, cumprindo as vénias à porta e ao chegar à sua frente. O conde-duque de Olivares vinha afogueado, sem dúvida da pressa em chegar junto do rei, sabedor de que algo o irava. A tez morena luzia de suores, contrastando com o bigode escuro e alçado.

Pouco disposto a entrar por cortesias de preâmbulo, o rei foi directo à verdade que lhe queimava a língua:

— Os portugueses não pagam, voltaram a não cumprir plenamente o que lhes é pedido!

— Com efeito, Vossa Majestade, um contratempo a que daremos resposta.

— Como ides forçá‐los a fazer os pagamentos?!

— É um processo gradual, que levará o seu tempo, mas que será conduzido com habilidade política, a única forma de vergar vontades sem usar a força, senhor, para chegarmos ao intento final.

A queixada protuberante com que o sangue Habsburgo marcara o rosto do monarca e que lhe alongava desproporcionadamente as feições tornava‐se mais notada nas horas de desassossego. Cofiava a barba, enquanto se remoía em pensamentos.

— Apesar da pacatez daquele povo, não posso desviar deles a vista, ao contrário do que pensei...

O valido ergueu o sobrolho.

— Pacatez, senhor? A revolta no Porto mostrou‐nos que não são inca‐ pazes de causar distúrbios...

— Têm um coração leal, é a minha convicção, se comparados com outros povos que nos infernizam — volveu o rei. — Porém, essa revolta pôs-nos de sobreaviso e mostrou que Portugal pode ser um enigma.

Nem se opunham, nem mostravam inteiramente a alma, era a percepção do rei, e a ideia de enigma não o descansava. Que controlo poderia ter sobre gente que não decifrava por inteiro? Era de controlo que se tratava.

— Vossa Majestade, quando entendemos que a via era a de plena absorção de Portugal em Espanha, concordámos que a União das Armas não bastaria... Tenho dedicado a esse assunto a maior atenção.

Livro: "Luísa de Gusmão"

Autor: Isabel Machado

Editora: Manuscrito

Data de Lançamento: 22 de novembro de 2023

Preço: € 22,90

Subscreva a Newsletter do É Desta que Leio Isto aqui e receba diretamente no seu e-mail, todas as semanas, sugestões de leitura, notícias e acesso a pré-publicações.

D. Filipe III fez um gesto com a mão, instando‐o a continuar.

— A solução dos casamentos mistos para absorver os povos não é nova... muitos antes de nós a seguiram, desde a Antiguidade... Tem havido mais enlaces entre a nobreza de Portugal e Espanha nas últimas décadas, embora não tenhamos ainda o controlo sobre todas as grandes Casas...

— É bem verdade — anuiu o soberano.

— O que se torna particular neste caso é a escolha criteriosa das famílias, de um lado e de outro, que, naturalmente, têm de nos dar garantias de absoluta fidelidade à Coroa.

— Estareis a pensar na mesma Casa portuguesa que tenho em mente, suponho...

Olivares sorriu e disse:

— Não há outra que pudesse algum dia vir a causar‐nos problemas, se bem me faço entender... Os duques de Bragança descendem de reis de Portugal e a avó de D. João, o actual duque, D. Catarina, foi uma das vozes que se opôs ao legítimo direito ao trono de Portugal de vosso avô. Tinha pretensões em assumir a Coroa, como neta do rei D. Manuel, direito a que nunca renunciou até à morte. D. João viveu com a avó até aos dez anos, não sabemos o que escutou, ou as ideias nefastas que D. Catarina lhe transmitiu, senhor...

O rei encostou-se ao cadeirão e elevou os olhos para a magnífica tapeçaria da Flandres, que quase inteiramente cobria a parede frente à secretária, enquanto discorria sobre o mapa das terras portuguesas e as vastas áreas sob domínio da Casa de Bragança, a mais poderosa do reino e com sangue real desde a sua fundação.

— D. João é menos agreste do que o pai, D. Teodósio II, que Deus tem, e acabou de herdar o título, estará maleável... — opinou.

Olivares acenou, com um sorriso de satisfação.

— Uma afabilidade de homem, não há quem discorde, de uma brandura e elevada educação como há poucos nos reinos de Vossa Majestade. Seu pai, ao invés, malgrado a vasta cultura, exibia uma arrogância aviltante. Não poupou esforços para arranjar noiva para o seu herdeiro longe das terras de Espanha...

O monarca fez um esgar de troça. D. Teodósio II enviara cartas secretas pela Europa em busca de uma nobre donzela que casasse com o filho, convicto de que não seria do conhecimento de Madrid. Ingénuo intento, com os espiões que os reis Habsburgo de Espanha mantinham por todo o continente. Deu o seu aval:

— Concordo que é o momento certo para abordar D. João, é ainda moço e, por temperamento, sempre disposto a estar de bem com todos e à conciliação de interesses desavindos. Tenho a melhor impressão da sua pessoa e estou convicto de que acatará sem renitências o alvitre que chegar de Madrid. Além disso, sei da vontade que tem de recuperar o ducado de Barcelos, que foi retirado à família e que lhe devolveria com gosto, para fincar os laços de fidelidade à Coroa, entre outras mercês que estou disposto a outorgar. É o único nobre de Portugal que nos poderia causar problemas, pelos direitos dinásticos que julga ter, mas, por outro lado, a sua natureza dá‐nos a garantia de que jamais se erguerá contra nós.

Afagou o tinteiro de cristal com tampa de prata, jóia que um dos seus comandantes militares na Flandres lhe havia ofertado, e afirmou:

— Não havendo dúvidas sobre qual seria a família portuguesa que interessa aproximar de Espanha pelo casamento, resta‐nos acertar a escolha da noiva, cuja linhagem deverá obedecer a rigoroso critério de lealdade.

Era mesmo nesse ponto que se centrava a grandiosa aspiração de Olivares, já secretamente falada com servidores portugueses do rei e representantes da Casa de Bragança em Madrid. Observou o monarca, de olhos semicerrados, que cogitava na sua extensa parentela. Antes que algum nome saísse dos carnudos beiços reais, o valido adiantou‐se, jogando o poderoso trunfo.

— Creio, Vossa Majestade, que há uma família que se sobrepõe a todas as outras. Com Grandeza de Espanha, laços ancestrais de fidelidade à Coroa e ilustres membros que contribuíram para a edificação dos vossos reinos. O melhor dos sangues também, com uma luzidia ascendência...

O rei chegou o tronco à frente, pousou os cotovelos sobre a mesa, gesto de familiaridade e disposição para acolher ideias, e descansou o rosto nas mãos.

Todo ele era ouvidos.

CAPÍTULO 1

Sanlúcar de Barrameda, Andaluzia,
18 de Dezembro de 1631

O sol rompera pela madrugada, como convinha em dia santo. Uma manhã límpida, de primeiros frios, iluminava o burgo, dominado no alto do promontório pelo grandioso Castelo de Santiago, cujas muralhas abraçavam a imponência do palácio ducal, de três pisos e paredes brancas, composto por vários edifícios acrescentados ao longo dos séculos a partir da construção almorávida do século xii, com numerosas janelas e uma extensa arcada virada ao mar. Um soberbo conjunto que se prolongava pela Catedral de Nossa Senhora do Ó, de pórtico mudéjar. A igreja palatina de três naves e arcos ogivais suportados por colunas recebera Cervantes, Goya e a rainha Isabel, a Católica, e fora edificada sobre o antigo alcácer dos mouros.

Era uma terra de luz, entalada entre o rio Guadalquivir e o Mediterrâneo, um estuário de águas tépidas e humidades, que acentuavam o alvor do casario, que já extravasara das muralhas pelo sopé abaixo, quase a tocar no extenso areal, em ruas harmonizadas com o declive do terreno. Proliferavam os conventos e as igrejas, fundados e apoiados pelos duques de Medina Sidónia, gente de orgulho e aguerrida devoção cristã.

A aparência acolhedora do aglomerado contrastava com a sua história de brio e de lutas, ditada pela posição estratégica, que servia de porto à cidade de Sevilha. Feudo dos Guzmán desde a Reconquista Cristã no século xiii, os senhores de Sanlúcar de Barrameda consolidaram a posse da valiosa terra, que fora do infiel, nas mãos da Coroa de Castela, protegendo‐a de novas investidas e de assaltos dos piratas que infestavam o Mediterrâneo. Fruto da continuada boa vassalagem e da proveitosa aliança entre a espada e a fé, chegara a elevação a duques, com Grandeza de Espanha, honraria concedida a poucas famílias da nobreza. O actual e oitavo duque de Medina Sidónia somava distinções: cavaleiro do Tosão de Ouro, a mais elevada Ordem de Espanha, capitão‐geral do mar e da Andaluzia e conselheiro de Estado e da Guerra do rei, de quem fora gentil‐homem de câmara.

Os novos tempos permitiriam outras gestas de heroísmo naquele lugar, com a descoberta e a pilhagem de terras além‐mar. Dali partira Cristóvão Colombo para a sua terceira viagem ao Novo Mundo e também Fernão de Magalhães, que não chegaria a regressar, ficando a apoteose do grande feito de circum-navegação para Juan Sebastián del Cano, que aportara a Sanlúcar três anos depois da partida, com os escassos homens que haviam sobrevivido à epopeia.

Fora também perto dali que se vivera o estertor do reinado do jovem monarca português D. Sebastião, com faustosas recepções e uma festa taurina em Cádis, antes do embarque do rei para a mais do que ousada aventura no Norte de Africa, que o haveria de matar e entregar o reino de Portugal à Coroa de Espanha. Todos os feitos e memórias se haviam tornado lendários no orgulhoso coração andaluz.

A prosperidade que viera com a abertura de novos mercados transformara a terra, com viajantes, escravos e produtos que chegavam de todos os cantos do mundo conhecido. Os proventos dos duques engordaram pelo mar, pela vastidão dos campos de olival e de trigo e pelos negócios e rendas, em domínios que se estendiam de Huelva junto à terra portuguesa, até Puerto de Santa Maria. Os sanluqueños habilmente transformaram os terrenos arenosos das dunas em férteis quinhões de terra arável, que chegavam a produzir duas colheitas por ano, cada uma com três tipos de legumes ou frutos, uma das marcas distintivas da terra, com as exíguas parcelas verdejantes a romper pelas costas.

As hortas e os pomares foram acrescentando produtos desconhecidos que iam chegando pelo mar, enriquecendo a cozinha andaluza. Integrou‐se o tomate, o milho e os pimentos às hortaliças de origem, e as especiarias perfumavam o peixe e o marisco, as peças de caça, de borrego e de criação, abundantes na mesa ducal.

Em dia de procissão, sem a azáfama habitual do porto e das praças pejadas de mercadores e dos forasteiros altos e de pele branca, abrasada pelo sol impiedoso, Sanlúcar assemelhava-se a um burgo adormecido, encostado à suave colina. O trinado dos pássaros substituía o clamor de um dos lugares mais vibrantes de toda a Espanha.

Desaparecidos os embarcadiços ébrios que, horas antes, cambaleavam para fora dos bordéis, e cobertas as meretrizes pelos véus da devoção, lavavam‐se os pecados no caminhar lento, ao compasso das badaladas dos sinos.

Tudo se via composto para agradar às três divindades que vergavam o povo em adoração fervorosa: havia Deus nos Céus, D. Filipe que reinava sobre boa parte da Terra e Don Juan Manuel Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia, venerado como um astro‐rei, que cintilava sobre as vidas agrestes e obedientes dos vassalos, a quem garantia sustento e protecção nos seus vastos domínios.

O povo acompanhava a procissão de Nossa Senhora da Esperança, uma Virgem de ventre fecundo, pois Maria fora o primeiro sacrário de Cristo, devoção entranhada na alma andaluza. A imagem da Virgem prenhe era transportada no andor por frades dominicanos através do asseio das ruas de pedra varridas e lavadas. Luziam os vidros das exíguas janelas das casas e o odor a mofo das roupas retiradas das arcas impregnava o ar.

As mães compunham os véus das filhas e endireitavam os crucifixos que pendiam dos peitos. Ninguém se via de fora daquele dia, nem os escravos ou os cristãos‐novos, almas convertidas pelo zelo dos padres e do Santo Ofício, em terra a que acorria gente de distantes credos e onde todos contribuíam para a prosperidade.

Em coches e liteiras, o séquito do duque seguia no final do cortejo, com os cavalos a passo lento, bem treinados nos preceitos das cerimónias de devoção.

A filha Luísa, o belo rosto trigueiro de oval perfeito coberto pelas rendas, de terço nas mãos, observava, emocionada, os rituais através da ampla abertura da liteira em que seguia com a camareira Margarita.

A procissão de Nossa Senhora da Esperança fora a primeira memória que guardara de sua mãe. O júbilo dos dias da preparação, das doações, o enfeite das flores para o andor, as rezas e a melodia dos sinos ao longo do caminho, tudo lhe recordava Doña Juana Gomez de Sandoval y la Cerda, a esposa que o duque tomara com o beneplácito dos reis de Espanha, padrinhos do casamento. Um enlace entre grandes, pois Doña Juana era filha do duque de Lerma, que fora valido do anterior rei de Espanha, e descendia da mais lustrosa linhagem, que incluía os duques de Medinacelli. Luísa era bisneta do português Rui Gomes da Silva, elevado a príncipe de Eboli por D. Filipe I de Portugal, de quem fora amigo próximo e favorito.

Depois de onze filhos, de que apenas haviam sobrevivido três, a duquesa deixara o mundo demasiado cedo, o que marcara a vida de Luísa de uma saudade eterna desde os onze anos. A tragédia abalara os dias pacatos e a tranquilidade da única filha dos duques de Medina Sidónia, educada entre a devoção a Deus e a caridade, o estudo das letras e o aconchego do colo materno.

Desaparecidas as festividades no palácio ducal e coberta a alegria luminosa que entrava pelas janelas com os reposteiros corridos e o sombrio do luto, encontrara junto ao peito do pai e da velha fidalga de Sevilha, Margarita, que acabara de a criar, o conforto nos momentos em que se permitia soltar as lágrimas, depois de passado o período de nojo.

Entre o desgosto do pai, o silêncio respeitoso dos serviçais, a obediência à jovem Doña Ana, a tia e cunhada e única mulher da família, tristonha e quebradiça de corpo e de vontade, a teima empedernida do irmão Belchior e o arrojo de Gaspar, o mais velho, preferira a solidez e a fortaleza dos conselhos paternos.

Assim se fizera, saída da infância com uma dura aprendizagem das agruras da vida, mas com a sabedoria de que a determinação podia tudo, pois o destino era feito de caprichos e mudava de um dia para o outro. Havia que agarrar a sorte, a água não passava duas vezes pelo mesmo lugar no leito de um rio.

A procissão subiu a rua principal, até ao largo no topo da colina, fronteiro à Catedral de Nossa Senhora do Ó, contígua ao palácio dos duques. Os religiosos travaram os passos, imobilizando gradualmente a longa fila de fiéis atrás de si. Abriram-se alas para deixar passar o pequeno séquito das carruagens que transportavam a família ducal. Um silêncio de reverência ancestral acompanhou a passagem de Don Manuel para a dianteira do cortejo. Imobilizado o coche, saiu para receber a homenagem do mordomo da procissão, rodeado pela família, junto à entrada principal do palácio e à porta da catedral.

Posicionaram‐se o patriarca, o herdeiro Gaspar, a sua mulher Doña Ana, o filho mais novo, Belchior, e Luísa, para beijarem os estandartes da Virgem, depois de uma última oração, antes de o andor regressar ao interior do templo.

Um estrondoso espirro cortou a solenidade. Don Manuel crispou os lábios e deitou um olhar reprovador sobre Gaspar, conde de Niebla, incomodado com a indignidade daquele descuido no seu herdeiro, quando deveria mostrar‐se um exemplo de decoro perante o povo, que acompanhava a cerimónia sem falhas. A seu lado, Luísa levou a mão à boca para conter o riso, mas o duque desvalorizou o gesto, complacente com o raríssimo erro da filha, que era a luz dos seus dias de viúvo.

Com um leve aceno, Don Manuel indicou que a procissão deveria seguir, e voltou a benzer‐se antes de entrar pelos altos portões de ferro, que separavam a rua do pequeno terreiro fronteiro ao palácio.

Atrás do pai, dos dois irmãos e da cunhada, Luísa entrou no vestíbulo para se dirigir ao salão do primeiro piso, onde o duque recebia os convidados. Subiu a escadaria de madeira, na qual luzia uma vibrante tapeçaria com as armas da família a cobrir a parede principal, distinguindo‐se o tosão de ouro e dois caldeirões, que significavam a posse de um exército.

Esperou na sala contígua, onde a camareira lhe retirou delicadamente o véu e compôs a fina madeixa dos cabelos negros apartados ao meio que se soltara do gancho de pérolas e rubis.

— Fomos abençoados com um tempo perfeito, Margarita — disse Luísa. — Encanta‐me que o povo possa usufruir deste sol no dia mais importante para os fiéis de Sanlúcar, pelo qual anseiam todo o ano.

— Ainda ontem o lamaçal das chuvas da manhã cobria o largo, mas tudo se compôs, Doña Luísa, tanta é a devoção por Nossa Senhora da Esperança. Não houve quem ficasse de braços cruzados para preparar a festa.

— A fé move montanhas, e só a morte é capaz de derrubar a nossa vontade.

Margarita baixou a voz.

— Até as moças do bairro de baixo se aprestaram a limpar as ruas por aí.

Luísa abriu os belos e imensos olhos negros.

— Andaram junto ao paço?

— Não aqui, não ousariam, mas na zona baixa.

— Se se perderam foi porque a vida as maltratou, ninguém escolhe uma vida de pecado. As irmãs do Convento de São Domingos agora ajudam‐nas e tenho roupas para ir entregar‐lhes.

— Ides entregá‐las a quem? — inquietou‐se, sabendo que, quando Luísa teimava numa ideia, não havia quem a demovesse, nem o duque seu pai.

— Ao convento, Margarita... — riu‐se do despropósito da pergunta. — Temestes que me fosse avistar com as moças? Não viria daí mal ao mundo.

— Eu ajudo‐vos a levar as roupas — ofereceu a aia Cristina.

— Nem iria sem ti. Está terminado o pano de altar que bordaste para a catedral?

— Quase...

— Onde andas com a cabeça? O Natal a chegar... há ainda os cabazes para encher e deixar nas irmãs.

— Estará tudo pronto — garantiu, sabendo que não poderia ser de outro modo.

Luísa encaminhou‐se para a sala reservada às senhoras, mas o irmão Gaspar travou‐lhe os passos para lhe sussurrar ao ouvido:

— O teu nome foi falado em Madrid.

— Sim? — alvoroçou‐se. — O que disseram?

— Gostaria de te responder, mas desconheço, embora suspeite.

— Por Deus, Gaspar, esperas que acredite? Quem te contou terá falado de tudo.

O conde de Niebla revirou os olhos.

— Não conheces Sua Majestade, Luísa... Rodeia-se de segredos e confia em poucos.

— Privas com ele.

— Não o bastante para lhe merecer confidências, que guarda para o nosso parente e seu valido.

— O conde‐duque de Olivares?

Gaspar elevou o sobrolho com um trejeito de troça nos expressivos olhos negros.

— Domina a cabeça do rei, que o tem coberto de honrarias. Não subiria na vida de outra forma, sendo de um ramo menor da nossa família. Vive envenenado pela ganância e pela cupidez que sente da grandeza de nosso pai. Já chegou a duque, mas é um título obtido por mor de intri‐ gas cortesãs e bajulação do rei, não pela bravura num campo de batalha, como nós.

— Pode ser, mas não estarás tu também envenenado pela inveja do seu favorecimento junto do rei?

— Tento na língua, minha irmã! — mostrou abrasamento no rosto moreno, de longos bigodes revirados.

— Esperas que refreie os pensamentos, Gaspar? — riu‐se. — Foste o meu mestre, cresci numa casa de homens dominadores, não esperes silêncios de mim.

O conde aquiesceu e sorriu.

— Gosto de ti como és.

— Mas desvias‐te do que disseste. Por que motivo foi o meu nome falado na corte?

— Apenas ouvi um rumor. Suspeito que o nosso parente anda a dar lustro aos pergaminhos da sua relação connosco para extorquir mais poder ao rei.

Gaspar afagou suavemente o bigode, com lânguida altivez, enquanto olhava pela janela que deitava sobre o pátio na entrada do palácio. Voltou-se de novo para a irmã.

— Os Medina Sidónia não devem nada a este monarca e à dinastia dos Habsburgo que reina sobre Espanha. Não tem o amor do povo, ao contrário do que se passa aqui entre nós, com o respeito que nos devotam. É esta a minha terra e onde quero viver em permanência, Madrid é uma necessidade apenas.

— Estás mais no teu condado do que na capital.

Gaspar baixou a voz:

— A minha capital é aqui, e o meu coração andaluz, apesar do sangue castelhano que nos corre nas veias.

— Talvez sejas tu quem precisa de moderar as palavras — alertou, sorridente. — Acautela‐te, nem todos gostam desses pensamentos.

— Espanha jamais foi unida, e a situação deteriora‐se, com ressentimentos contra o poder absoluto de Madrid, apenas me mantenho atento. Doña Ana pediu desculpa por interromper a conversa, Luísa era esperada pelas esposas dos ilustres presentes, desejosas de privar um pouco com a filha do duque.

Em redor das braseiras, as virtuosas damas aconchegavam os peitos fartos, entalados nos vestidos austeros, com xailes tecidos a lã e a seda, enquanto se regalavam com as fritadas de peixe e de marisco. Debicavam com delicadeza. Ali, havia que mostrar elegância e estar de ouvidos bem atentos, pois, aos dezassete anos, Luísa estava em idade casadoira, era uma formosa herdeira, bem abonada, de ilustre sangue e raras prendas. Enquanto não soubessem de esponsais firmados, permitiam-se sonhar alto com a sua mão para algum dos primogénitos, embora suspeitassem de que, no mínimo, Don Manuel exigiria um duque para a filha.

— A procissão de hoje superou as anteriores, com os arranjos floridos e a presença de numerosos fiéis — disse a esposa do alcaide.

— Esforçámo-nos para isso — respondeu Luísa. — Veio quase todo o povo.

— Alguns são forasteiros — respondeu com trejeito de desagrado Doña Josefa, ilustre fidalga de Huelva e parente dos Guzmán.

— Acorrem cada vez mais — concordou Luísa —, e agrado‐me que estejam presentes.

— Mesmo sabendo que alguns permanecem hereges no coração, Doña Luísa? — incomodou‐se a condessa Doña Leonor.

— Os ingleses que cá vivem são católicos, como bem sabeis — respondeu Luísa. — A minha aversão à heresia iguala a vossa, não podemos garantir o que vai no coração de todos os que aqui residem, mesmo que se apresentem como católicos, mas a esperança que guardo é de que se convertam, caso haja ainda algumas almas desviadas em Sanlúcar...

— O que temo são as influências que trazem, os livros de oração em inglês, como já ouvi dizer que usam, ao invés da Bíblia em latim! Podem desvirtuar o povo com as suas ideias profanas — replicou.

Em redor, acenavam as cabeças zelosas. Aquela gente protestante era um perigo, esgueiravam‐se como o vento entre os verdadeiros cristãos. Desde que as embarcações cruzavam os mares e traziam toda a casta de forasteiros para a pacata Sanlúcar, temia-se que os ensinamentos de Cristo fossem ofendidos, ali, na terra conquistada aos mouros com o sangue dos guerreiros de Deus.

— Diz‐me o coração que este povo jamais aceitará que se distorça a sua fé, que é profunda — concluiu Luísa.

Levou à boca uma garfada de sardinha cozinhada em vinagre com cominhos, açafrão, cebola e cravinho, uma especialidade da terra e um dos seus pratos preferidos, que tão bem combinava com o molho de canela.

— Ides passar uma temporada a Sevilha este ano? — quis saber Doña Maria Ponce de León, desejosa de festas onde os filhos pudessem privar com Luísa.

— Ainda não ouvi nada — respondeu. — O senhor meu pai anda atarefado com inúmeros afazeres, nem sei se terá vagar para abandonar Sanlúcar.

— Sim? — interessou‐se a dama. — Haverá desenvolvimentos que desconhecemos?

Caiu um silêncio curioso na sala. Ouvia‐se o crepitar da lareira e um toro subitamente resvalou. Luísa fez sinal à criada para que mandasse um dos moços arrumar as madeiras, pois um toro tresmalhado traria fumos indesejados para o repasto. Voltou à conversa para responder à curiosidade da senhora, que palpitava com a ideia da aproximação de Luísa à sua família pelo casamento. Ainda inocente dos meandros tortuosos do interesse, respondeu com naturalidade:

— Desenvolvimentos, propriamente, não, que esteja informada. Já me contentava com uma ida ao parque de Doñana.

— É uma paz muito ansiada no rebuliço dos... — suspirou a mulher de Gaspar.

Luísa sorriu‐lhe. Estimava a tia, irmã mais nova de seu pai que casara com o herdeiro e a ajudara na orfandade, mas Doña Ana vivia a lastimar‐se pelos cantos do paço quando vinha a Sanlúcar, nem parecia uma Guzmán de sangue.

— Nem sempre é serena a travessia do rio, minha tia — recordou‐a, ainda no ano anterior a barcaça quase se virara com as correntes fluviais. — Credo... — benzeu‐se a pobre senhora, bem lembrada. — Agora que o referis, recordo ter jurado a mim mesma não voltar a entrar na embarcação! Mas a memória falha‐nos quando queremos regressar a um sítio, apagando as más recordações...

— Doñana vale bem um pouco de susto — disse Luísa, esperando acabar com os queixumes da tia.

Porque o seu tempo é precioso.

Subscreva a newsletter do SAPO 24.

Porque as notícias não escolhem hora.

Ative as notificações do SAPO 24.

Saiba sempre do que se fala.

Siga o SAPO 24 nas redes sociais. Use a #SAPO24 nas suas publicações.