A dois dias de saírem à rua, os carros alegóricos, a serem ultimados pelos criativos, são um dos veículos para a habitual sátira política e social.
Um deles simboliza a ‘disfunção do 25 de Abril’: A imagem típica de Salgueiro Maia que surge dentro de uma chaimite é aqui alterada por um órgão genital sem ereção e o Zé Povinho a segurar na mão o remédio para a disfunção erétil.
“Os ideais que a revolução nos trouxe não estão tão vigorosos, não estão tão presentes quanto isso e nós quisemos retratar isso numa brincadeira satírica para o nosso carnaval”, explica à agência Lusa, o autor e construtor Hélder Silva.
Num outro carro alegórico, onde se lê “cuidado com a tua opinião”, reflete-se sobre a liberdade de expressão, um direito que corre o risco de ser posto em causa, na era da comunicação e das redes sociais.
No monumento do Carnaval erguido e inaugurado há três semanas no centro da cidade, surgem as caricaturas de Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Mário Soares e Salgueiro Maia, bem como de uma mulher em tamanho gigante, com cravos e a libertar uma pomba, alguns dos símbolos da ‘Revolução dos Cravos’.
Um jardim de cravos, onde se encontra o ex-Chefe do Estado Maior da Armada e potencial candidato à Presidência da República Gouveia e Melo, é regado com água para simbolizar os cuidados a ter com a democracia.
Escolhido a partir de sugestões dos foliões, o tema deste ano do Carnaval “foi aceite com alguma resistência, mas o folião torriense consegue dar sempre a volta e, portanto, vamos conseguir satirizar, brincar com muita imaginação”, afirma Rui Penetra, presidente da empresa municipal Promotorres, que organiza o evento.
A expectativa é grande para ver até onde vai a imaginação dos foliões na conceção e produção das máscaras.
As nove mil crianças no corso escolar de hoje e os grupos de mascarados que integram o concurso do corso de sábado mascaram-se também de acordo com o tema.
A sátira à política internacional e nacional também não é este ano esquecida com vários líderes mundiais tais como Trump, Putin e Netanyahu sentados em sanitas, num carro alegórico, e o bloco central composto por Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos a espremer o Zé Povinho, no monumento.
O Carnaval de Torres Vedras, com um orçamento de 1,1 milhões de euros, espera receber mais de meio milhão de visitantes de hoje até ao dia 5 de março, com os habituais desfiles de milhares de mascarados e dos carros alegóricos.
A diversão continua noite dentro em várias praças ao ar livre e bares e discotecas da cidade.
São estimadas receitas de, pelo menos, 12 milhões de euros na economia local.
Em 2023, o Carnaval de Torres Vedras foi inscrito no Património Cultural Imaterial Nacional por ser considerado ‘o mais português de Portugal’ e se manter fiel às tradições do Entrudo português.
O município de Torres Vedras, no distrito de Lisboa, está a preparar a candidatura do Carnaval a património imaterial da UNESCO, cujo dossiê deverá ser entregue até 15 de março.
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