O jovem — com dupla nacionalidade, russa e alemã — foi preso no ano passado quando ainda andava na escola e tornou-se a pessoa mais jovem da história moderna da Rússia a ser condenada por traição, conta a BBC.

Dez meses após ter sido detido, Kevin foi considerado culpado e condenado a quatro anos de prisão numa colónia penal.

Este ano, a 23 de julho começou a perceber os sinais da mudança. Nesse dia, foi abordado por um oficial superior da prisão e foi-lhe dito que tinha 20 minutos para "escrever urgentemente uma petição" para um perdão presidencial, o que fez.

Depois, a 28 de julho, esteve seis horas à espera não sabia de quê num gabinete da colónia penal 14, perto de Arkhangelsk, no extremo noroeste da Rússia. "Talvez me estejam a levar para ser fuzilado", pensou.

Mas não foi assim. No dia seguinte, chegou um comboio para o levar e a 1 de agosto, Kevin Lik foi libertado juntamente com outros prisioneiros. Nunca lhe foi explicado que estava a ser trocado, mas quando já estava no ar com destino à Turquia era claro o que estava a acontecer.

Depois, sobre que o assassino Vadim Krasikov estava entre os que estavam a ser devolvidos à Rússia nesta troca de que também fez parte.

Neste momento, o jovem não é mais o mesmo. A começar pela aparência. "Perdi muito peso na colónia", explica. Com cerca de 1,90m de altura, pesa apenas 70 kg.

Apesar do que passou, não ficam mágoas. "Não tenho um desejo de vingança, mas tenho um desejo muito forte de participar em atividades da oposição", confidencia.

Um jovem acusado de traição

No que diz respeito a questões políticas, conta que foi a eleição presidencial russa de 2018 que despertou o seu interesse. A sua mãe, uma trabalhadora do setor público da saúde, chegava a casa e dizia que ela e os seus colegas tinham sido transportados de autocarro para as assembleias de voto, onde lhes era dito: "Votem no Putin ou tiramos-vos o bónus".  Na altura, Kevin tinha apenas 12 anos, mas diz ter percebido que "quase não havia democracia na Rússia".

Na altura, Kevin ficou furioso com o facto de quase todas as salas de aula da sua escola terem um retrato de Putin. "Diziam-nos constantemente que a escola não é um lugar para a política. Não é correto pendurar retratos e promover um culto de personalidade como aquele", nota.

Por isso, cerca de um ano mais tarde, causou um escândalo quando trocou um retrato escolar de Putin por um do líder da oposição Alexei Navalny. "Um professor disse que, no tempo de Estaline, eu teria sido fuzilado".

Mais recentemente, quando Kevin se aproximava do último ano de escolaridade, a mãe decidiu que deviam regressar à Alemanha. Como a Rússia tinha invadido a Ucrânia, o nome de Kevin tinha de ser retirado do registo militar para conseguir sair do país.

Victoria, a mãe, foi ao gabinete de alistamento para tratar da papelada do filho, onde foi recebida pela polícia e acusada injustificadamente de dizer palavrões em público — e depois condenada a 10 dias de detenção.

Deixado sozinho, Kevin deixou de ir à escola. Um dia, aventurou-se a sair durante algumas horas e diz que quando regressou ao apartamento "as coisas tinham sido mudadas de sítio". Um sinal de que as coisas não estavam mesmo nada bem.

Todavia, o sinal definitivo chegou quando a mãe foi libertada e tentaram ir para a Alemanha. Na cidade de Sochi, que tem um aeroporto internacional, perceberam que estavam a ser seguidos e parou por perto um miniautocarro. "Oito ou nove agentes do FSB [Serviço Federal de Segurança russo] saltaram para fora. Um agarrou-me pelo braço. Outro aproximou-se, mostrou o BI e disse: 'Foi aberto um processo criminal contra si ao abrigo do artigo 275: traição'. Fiquei com os olhos arregalados de choque", conta.

Na altura, a detenção de Kevin foi justificada pelo facto de terem encontrado no seu apartamento um telescópio partido, que os agentes suspeitarem ter sido utilizado para registar imagens de veículos militares da sua janela e enviá-los para os serviços secretos alemães. As fotografias foram de facto tiradas, mas o jovem nega esse objetivo.

Apesar disso, assinou a confissão. "O testemunho foi absolutamente absurdo", diz. "É um jogo de xadrez, era evidente que não havia justiça".

Durante o tempo de detenção, Kevin diz ter sigo agredido por outros reclusos. "Ataram-me as mãos, bateram-me e até me apagaram um cigarro. Bateram-me com tanta força no peito que não conseguia respirar".

Para além da sua mãe, ninguém que ele conhecesse o contactou após a sua detenção, mas depois de os meios de comunicação social terem noticiado o seu caso, estranhos começaram a escrever-lhe. "As cartas ajudaram-me muito", afirma.  "No meu aniversário, recebi 60 cartas. O meu objetivo era responder a cada pessoa". Na altura, as cartas foram confiscadas, mas agora, em liberdade, certamente haverá tempo.