O primeiro encontro no digital do Smart Cities Tour 2020 contou com a apresentação de propostas para ampliar a inteligência urbana em Portugal e a estratégia de transformação digital das autarquias e a moderação ficou a cargo de Miguel Castro Neto, da NOVA CIDADE.

Apesar de o evento “ser” na Covilhã, o presidente da autarquia, Vítor Pinheiro Pereira, não pôde participar na sessão por se encontrar em isolamento.

Assim, coube a António Almeida Henriques, presidente da Câmara Municipal de Viseu e vice-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), dar início à sessão, focando a sua intervenção nas “questões do interior do país”.

"Os últimos sete meses mostraram como as desigualdades se agravam, quando os municípios e os territórios não estão preparados tecnologicamente para responder nos diferentes domínios", afirmou.

“Nunca o conceito da inteligência urbana, da inteligência dos territórios foi tão importante para perspetivar um futuro próximo”, referiu, expressando a sua convicção de que o “salto tecnológico” previsto para "os próximos dez anos encolheu para dois, três anos”. António Almeida Henriques explicou ainda a importância de as autarquias “apanharem este comboio”, por forma a evitarem ficar para trás, num país que funciona “a duas velocidades”, destacando as desigualdades e disparidades do interior do país.

“70% da população portuguesa hoje esta situada em 50 quilómetros da faixa costeira, a densidade populacional média a rondar os 350 habitantes por quilómetro quadrado, quando a densidade média no interior do país atinge os 90 habitantes por quilómetro quadrado”.

O autarca promoveu a necessidade de uma política de desenvolvimento regional orientada para a redução da disparidade de rendimentos entre territórios e que estimule a coesão territorial e a competitividade dos territórios, enquanto permite a disseminação da tecnologia.

Terminou referindo que, apesar da evolução das infraestruturas nos últimos anos, não foram criadas dinâmicas que “permitissem afirmar os territórios e esbater as desigualdades”, que são agora agravadas pela pandemia.

Autarquias apostam na inteligência urbana 

Seguiu-se João Sousa, da Câmara de Alenquer, que apresentou o projeto Alenquer Green Lab - Laboratório vivo para a descarbonização. O projeto apresenta diferentes soluções para a descarbonização, eficiência energética, mobilidade ecológica e consumo de energia responsável em Alenquer.

Além de prever intervenções numa área da vila, a Câmara Municipal tem implementado várias medidas de mobilidade, sistemas de gestão inteligente do consumo energético, sistema de rega inteligente, entre outros.

Em termos de mobilidade falou-se de mobilidade elétrica partilhada, transporte público sustentável e sistema inteligente de apoio ao estacionamento.

A autarquia pretende diminuir o impacto do automóvel através da redução do tráfego rodoviário, pelo que procedeu à reorganização da rota de autocarros recorrendo à nacional 9, conseguindo assim atingir também uma redução da poluição na vila.

“A redução da poluição foi significativa, em teoria devia ser 50%, porque 50% das passagens foram suprimidas e é aproximadamente isso que está a acontecer”, explicou João Sousa.

No âmbito da mobilidade, foi ainda apresentado o projeto de reconversão de um mini autocarro a combustão para elétrico: “[O autocarro] tem umas baterias de teste, com uma autonomia de 30 quilómetros, mas estamos a aguardar as novas baterias com uma autonomia de 100 e poucos quilómetros. O que vai permitir menos recargas e mais eficiência”.

Além das e-bikes e do car sharing, a autarquia apresentou um sistema de apoio ao estacionamento inteligente, que tem vindo a testar. O sistema identifica através de sensores magnéticos, de passagem e vídeo, a lotação dos respetivos parques.

Foram ainda implementadas interfaces de monitorização e controlo que permitem “determinar o nível de poluentes e do ruído” e, a partir desses parâmetros, é possível “determinar o grau de eficiência que os projetos estão a ter”.

Na apresentação de sistemas implementados pelas autarquias, seguiu-se José Pedro Rodrigues, da Câmara Municipal de Matosinhos, que visou várias soluções desenvolvidas no âmbito dos transportes.

“Procurámos trabalhar soluções que ligassem três dimensões muito claras a experimentação tecnológica – com soluções inovadoras experimentadas em contexto real –, uma dimensão de cidadania para nos ligar aos cidadãos, e também, no que respeita a informação, a capacidade de gerarmos sistemas que nos permitissem monitorizar e avaliar em tempo real os impactos da descarbonização na cidade”, explicou.

Afirma também estar a trabalhar num "pavimento que absorve as energias dos automóveis e a transforma em energia elétrica", ao que se procura associar a uma "medida de controlo de velocidade e combate à sinistralidade”. Esta solução de pavimento deveria possibilitar que a passagem de 100 automóveis permita o carregamento de uma bicicleta do sistema bike sharing. A estes projetos juntam-se também outros de iluminação eficiente no espaço público e ainda um robot autónomo para limpeza das ruas, complementando o trabalho dos funcionários.

Outro destaque da autarquia é a intenção do desenvolvimento de um sistema de recompensa que permitirá medir o efeito de poupança ambiental de cada cidadão.

“Entendemos que para estas transformações se darem de forma rápida precisamos de ter instrumentos que coloquem os cidadãos no centro desta transformação, para que compreendam também a sua responsabilidade em termos de opções de mobilidade. Estes créditos de emissões poupadas são o instrumento que vai colar todas estas transformações que temos vindo a protagonizar”, salienta José Pedro Rodrigues.

Uso do hidrogénio para a mobilidade urbana

Gil Nadais, diretor-geral da Abimota, associação que representa o setor das duas rodas em Portugal, abordou a relevância que o setor tem ganho à escala internacional.

O diretor geral salientou que Portugal se tornou o primeiro produtor e exportador de bicicletas da União Europeia e explicou como o setor das bicicletas elétricas se está a afirmar no país, tornando-se uma das tendências do mercado. Para Gil Nadais, esta tendência pode colocar Portugal na vanguarda dos sistemas de mobilidade suave.

Teresa Ponce Leão, presidente do Laboratório Nacional de Energia e Geologia e presidente da Associação Portuguesa do Veículo Elétrico, destacou o “uso do hidrogénio para a mobilidade, para reduzir os 25% das emissões que vêm dos transportes”.

“O hidrogénio vem complementar, fundamentalmente, para abastecimentos de longo curso”, completou.

A presidente do LNEG salientou ainda o laboratório colaborativo BIOREF, com competências para "a produção de hidrogénio e de biocombustíveis de alta geração, em particular para a produção de combustíveis para a aviação”. Os combustíveis para a aviação ainda não têm solução, mas para Teresa Leão “futuramente, serão conseguidos à custa do hidrogénio e dos novos fuéis, nomeadamente a partir das microalgas”. Neste sentido, mencionou ainda uma possível colaboração que está para ser estabelecida.

Depois do atlas solar e eólico do país, a presidente visou ainda a intenção de “desenvolver o atlas de hidrogénio para o país, cruzando toda a informação por forma a identificar as zonas de grande potencial”.

Para terminar, depois de algumas intervenções da assistência, seguiu-se Miguel Sousa, da Inova+, com a apresentação das oportunidades de financiamento, umas em curso, outras em preparação, destacando a importância de ter “planos de ação e de implementação bem definidos” para que se possam obter resultados.

Sobre o quadro europeu de apoio ao investimento, explicou que “dentro da área da mobilidade, uma cidade oferece todos os desafios para que uma solução possa ser testada”, mas com limitações a nível territorial. Assim, é importante, aquando do projeto, que “a escalabilidade da solução esteja garantida”, porque os desafios e os requisitos são diferentes quando aplicados a uma escala maior.

Esta iniciativa desenvolvida pela ANMP e a NOVA Cidade – Urban Analytics Lab, da NOVA IMS, em parceria com a Altice Portugal, CTT, EDP Distribuição, Caixa de Crédito Agrícola e Deloitte, abordará no próximo evento o tema do turismo inteligente.

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