Este texto faz parte da rubrica Regresso a um Mundo Novo, em parceria com a plataforma 100 Oportunidades, em que vários jovens nos ajudam a pensar o mundo pós-pandemia.


Uma vida humana tem um valor incalculável. No entanto, qualquer decisão sobre o “confinamento” e o seu contrário compara implicitamente o risco assumido, em termos de vidas humanas, e o custo das restrições à atividade económica. Tal decisão assenta na intuição dos decisores políticos responsáveis por elas. Ainda assim, as últimas semanas trouxeram-nos amplo trabalho académico que demonstra como esta escolha pode ser tornada explícita e assim mais informada e consistente; tem também clarificado como existem mais complementaridades do que conflitos entre “saúde” e “economia” - o blog Vox.eu tem produzido muitos resumos da atividade intensa da academia em economia e finanças sobre a pandemia, ver por exemplo aqui e aqui.

Serve isto apenas para relembrar que, embora a proteção da vida seja um valor absoluto, aceitamos correr riscos todos os dias que a colocam em causa.

Alguma opinião pública pareceu surpreendida com a rebelião dos mais velhos que puderam transgredir as recomendações oficiais, e a frustração dos que não puderam. No entanto, a aparente irresponsabilidade está associada a um argumento bastante consistente.

Pensemos nas pessoas a partir dos 80 anos, que têm em geral um perfil inegavelmente mais frágil em termos de saúde. Sem olhar a quaisquer fatores idiossincráticos, de acordo com os dados demográficos, em Portugal, as pessoas a partir dos 80 anos, com uma probabilidade perto dos 5%, e que cresce de ano para ano, já não atingem o aniversário seguinte. 5% não parece muito mas significa que, ex ante, a probabilidade de viverem mais 5 anos, por exemplo, é quase nula.

Perante isto, o risco adicional colocado pela Covid é marginal, do ponto de vista individual, mesmo que seja uma ordem de grandeza superior ao que coloca aos mais jovens. É, pois, perfeitamente lógico que os idosos sintam a necessidade aproveitar o tempo ao máximo, e estejam em maior disposição de assumir esse risco. A situação de isolamento a que estão votados muitos idosos em Portugal é, assim, especialmente dramática. Não foi trazida pela pandemia – segundo dados de um inquérito em 2011 mais de um terço dos idosos estão sós mais de oito horas por dia – mas foi obviamente muito agravada.

Não quero com isto dizer que não devam existir medidas especiais de distanciamento. Por um lado, existe um risco coletivo que é preciso salvaguardar, e que os mais idosos terão de compreender também. Tendo maior probabilidade de desenvolver formas graves da Covid, isso implica uma responsabilidade individual acrescida, dado que uma acumulação rápida de internamentos pode colocar em causa a capacidade de resposta dos serviços de saúde. Para além disso, o risco de necessitar de cuidados de saúde é socializado, pois o custo em caso de doença grave é coberto pelo Serviço Nacional de Saúde. Ainda assim, os idosos merecem o direito a gerir o seu próprio risco individual de acordo com as suas preferências. As políticas específicas para proteger esta camada da população devem ter em atenção este difícil equilíbrio.

Mas o grupo de risco não se reduz às pessoas de idade muito elevada. O primeiro grupo definido pela Direção-Geral da Saúde é composto pelas pessoas com idade “avançada”, identificada como superior a 65 anos.

Dá que pensar como viveríamos a pandemia num país onde as pessoas com idade “avançada” em vez de representarem pouco mais de 20% da população, representassem mais de um terço. Não se trata de ficção: será a realidade, aqui em Portugal, daqui a apenas 25 anos, segundo as últimas projeções do Eurostat.

Nessa altura, muito mais do que acontece atualmente, seria quase impossível impor um dever especial de recolhimento às pessoas com mais de 65 anos. A idade normal de reforma já está nos 66 anos e meio, portanto depois do início da idade “avançada”, e em 25 anos ultrapassará os 68, de acordo com as previsões atuais.

A velocidade e dimensão da transição demográfica que enfrentamos obriga-nos a acelerar uma reconceção do papel dos “idosos” na sociedade. Existe ampla reflexão, que não cabe nestas linhas, sobre o chamado “envelhecimento ativo” -- e um exemplo muito concreto de um país, o Japão, que tem demonstrado como é possível reconceber o papel das pessoas com idade “avançada” na vida social.

A pandemia veio recordar-nos da urgência desta mudança de paradigma. No conforto do século XXI, enquanto humanidade, convivemos com riscos existenciais. Uma sociedade em que um terço da população é votada pelos restantes a uma condição inativa e frágil é uma sociedade necessariamente menos resiliente perante esses riscos.

Retirando uma lição mais objetiva: o aumento da esperança de vida levar-nos-á a ter de rever o que definimos como “idade avançada”. Mas tal não depende de um decreto da Direção-Geral da Saúde. Depende de uma mudança cultural que veja as pessoas com mais de 65 anos como aquilo que são: agentes com um papel tão importante na vida social e económica como os restantes. Depende também do investimento em cuidados de saúde e investigação que permita aumentar não só a esperança de vida mas também o número de anos com bons indicadores de saúde (a chamada “idade biológica”). Sem esquecer que um estilo de vida saudável e um papel social ativo e relevante também contribuem para o estado geral de saúde. Tudo isto contribui para a capacidade de resistir a possíveis ameaças, como a colocada pelo novo coronavírus.

A pandemia é a concretização de riscos a que estávamos, enquanto sociedade, sujeitos mas ignorámos. Veio também fazer luz sobre outros, a que nos teremos de adaptar, implicados pelo envelhecimento da população. Este último não é um risco, é uma recompensa – certa – por décadas de custosos avanços na área da medicina. Saibamos adaptar-nos.

*Luís Teles Morais escreve segundo o novo acordo ortográfico