Hoje, a ciência chama «açúcares», assim, no plural, a certos químicos que sempre fizeram parte da nossa alimentação. Mas, tradicionalmente, a palavra «açúcar» designa aquele produto doce (o produto doce por excelência) que é obtido a partir da cana-de-açúcar (ou, mais recentemente, da beterraba) — e que vemos a polvilhar um bolo que chama por nós no café. É desse açúcar que vamos falar, através da história da própria palavra.

Tudo indica que, nas paradisíacas ilhas entre o Índico e o Pacífico, alguém percebeu que podia transformar aquelas canas num grão tão doce que não resistimos a comê-lo. Um canto de sereia do paladar, que viria a mudar o mundo.

Há uns 3500 anos, a planta e a forma de a transformar em açúcar espalharam-se pelo Índico. Foi na Índia que a nossa palavra deu o primeiro passo. O açúcar, em sânscrito, começou a chamar-se «śárkarā». Era uma palavra antiga, que já tinha vindo do proto-indo-europeu, e que significava algo como «gravilha» ou «areia». O açúcar era mesmo uma espécie de areia, mas com um sabor divino.

A palavra — e o próprio açúcar — começaram um lento caminho até à Europa. Do sânscrito, passou a outra língua indo-europeia: o persa, onde se transformou em «šakar». Como tantas outras palavras, foi emprestada pelo persa ao árabe, onde se tornou «as-sukkar».

O árabe acabou por dar a palavra às línguas europeias, por dois caminhos: foi emprestada directamente às línguas ibéricas, onde ficou com o «a» inicial do nosso «açúcar», e às outras línguas através do italiano «zucchero», que se transformou no «sucre» francês, no «sugar» inglês, entre muitas outras palavras por essa Europa fora. (Há que dizer que, nas línguas ibéricas, há uma que recebeu a palavra por este segundo caminho: o catalão, onde a palavra é «sucre».)

É curioso: a palavra começou numa língua indo-europeia, passou por outra língua indo-europeia (o persa), mas arribou às línguas indo-europeias da Europa através do árabe, uma língua de outra família. As palavras não querem saber de que famílias são as línguas por onde passam.

Neste caminho todo, o açúcar manteve-se como especiaria de luxo. Quando houve espaço para tal — nas ilhas atlânticas e na América —, os europeus começaram a cultivar cana-de-açúcar como se não houvesse amanhã. A procura não tinha fim. Muito do tráfico atlântico de escravos fez-se para alimentar a produção de açúcar.

O sistema sofisticou-se: o rum, um produto secundário da produção do açúcar, era usado para comprar escravos em África, que eram levados para a América, para produzir mais açúcar — e mais rum, que era levado de novo para África, para comprar mais escravos, levados então para a América, num círculo horroroso, alimentado pela nossa gulodice.

A própria palavra continuou a saltar de língua e língua e existe hoje nas línguas crioulas, como o «sukra» do cabo-verdiano e o «suku» do papiamento (ambas com origem portuguesa). Já na Papua-Nova Guiné, ali entre o Índico e o Pacífico, na zona onde surgiu a cana-de-açúcar, encontramos a forma «suga» no tok pisin, uma das principais línguas do país. A origem da palavra foi o inglês — o açúcar deu mesmo a volta ao mundo.

E o mundo está hoje preso a este vício, delicioso e terrível para a saúde. O corpo humano evoluiu durante milhões de anos para açambarcar tudo o que fosse doce — eram alimentos muito raros, mas preciosos, pela energia que continham. Quando deixaram de ser raros, o gosto inato pelo doce manteve-se — e o açúcar é mesmo muito doce. Da próxima vez que estiver a fazer o esforço de resistir a um bolo que chama por si, aproveite para recordar a volta ao mundo do açúcar, uma viagem que teve tanto de doce como de terrível.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

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