A palavra portuguesa parece ter vindo do latim, mas por um caminho particular: a palavra «insula» acabou no catalão «illa» (plural «illes», como em «Illes Balears»), saltou a península, e aterrou no galego e no português.

Porque importámos esta palavra do catalão? Não sabemos bem… O catalão foi muito importante na Idade Média, como língua principal de Barcelona e da Coroa de Aragão, e ouviu-se em muitas ilhas do Mediterrâneo — ainda se ouve, aliás, na Sardenha, para não falar das Ilhas Baleares, claro está.

Mas como veio esta palavra parar precisamente ao lado da península que não está virado para o Mediterrâneo, a esta língua que vem lá do Noroeste? As histórias das palavras são assim, cheias de aventuras que se adivinham, mas cujo enredo se perdeu no ar em que as palavras se dispersam, quando não as escrevemos.

Por um caminho mais directo, sem sair da boca dos falantes aqui a ocidente da península, a mesma palavra latina veio a dar «ínsua», com a habitual queda do [l] intervocálico — uma palavra que associamos a ilhas de rio.

A palavra «ilha» continuou a viagem para outras línguas — e ouve-se, por exemplo, em cabo-verdiano, onde ilha é «ilha». O cabo-verdiano é bem diferente do português, principalmente na gramática, mas tem muitas palavras parecidas.

Enfim, se as pessoas às vezes se isolam (isolar é tornar ilha), as línguas, essas, não são ilhas e raramente deixam de receber e oferecer palavras.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é História do Português desde o Big Bang.

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