CAPÍTULO 3

A minha relação acabou. Como fazer o luto?

«A minha relação acabou» ou «Já não nos falamos». Dizer estas palavras em voz alta, principalmente sobre relações com pessoas que fizeram parte da nossa vida, mais ou menos tempo, pode ser doloroso, esmagador até, como se, de repente, «alguém puxasse o tapete debaixo dos nossos pés». Talvez já tenhas de o ter dito em algum momento da tua vida, e, talvez nesse momento a tua voz gaguejou ou então até foi certeira; depende. A experiência de cada um com o fim de uma relação é diferente e única. Não há uma experiência certa ou errada e está tudo bem. Depende da pessoa e da relação com o outro elemento. Tu mesma podes já ter tido diferentes reações a diferentes términos.

Quando se trata de um término com alguém que amávamos (tendo sido terminado por ti ou pela outra pessoa) pode existir uma sensação de vazio que se instala, uma sensação de perda que parece tomar conta de tudo, de cada pensamento, de cada ação... parece que nada é mais igual.

As rotinas, que antes faziam parte do dia a dia, deixam de existir ou até de fazer sentido, as memórias tornam-se mais vivas e intensas, parecem entrar de forma intrusiva no nosso pensamento, como que sem pedir autorização, e existe um misto de emoções, de dor, raiva, saudade, culpa e confusão, ou outras emoções, que podem ocupar o nosso coração. É uma dor profunda, é um luto. É o fim de um capítulo, de um futuro que foi idealizado, de expectativas que foram quebradas. Num momento tudo parece fazer sentido, no outro já não existe mais nada; num momento há uma vida partilhada, uma rotina e uma pessoa com quem contar, no outro estamos sós.

Mafalda Santos junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 26 de março, desta vez uma quarta-feirapelas 21h00. Consigo traz "Aquilo que o Sono Esconde", publicado pela Suma de Letras.

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Pode ler aqui um excerto do livro.

Deste modo, esta mudança faz-nos questionar: «E agora?». A dor que se sente faz questionar igualmente: «Será que um dia vai passar?». Além disto, muitos outros pensamentos podem surgir (e veremos os mais comuns ainda neste capítulo).
A verdade é que todos estes pensamentos, toda esta dor e confusão é algo natural na perda, é algo natural no luto. E se estás neste momento a passar por eles, não estás sozinha.

Ultrapassar o fim de uma relação envolve um processo de luto. Embora a palavra «luto» seja normalmente associada à morte (que, neste livro, não iremos abordar), aplica-se também ao fim de relacionamentos significativos. Quando falamos em luto, podemos falar das fases de luto descritas por Kubler-Ross (1969), que nos ajudam a compreender como é a experiência de alguém que está a passar por esse processo. Inicialmente, acreditava-se que seriam fases que as pessoas passavam de seguida, mas, hoje, sabe-se que não têm uma ordem específica ou um tempo específico, e que se pode vivenciar mais do que uma delas num dia e várias vezes durante o processo.

No fundo, é importante conheceres todas as fases para que pos- sas entender o que está a acontecer contigo, o que estás a sentir e entender que é normal. No entanto, não cries expectativas sobre «Como deveria fazer?» ou «Devia já estar nesta ou naquela fase»; cada pessoa tem o seu processo. As fases não ocorrem de forma linear e é normal que possas avançar e recuar ao longo do processo.

O mais importante:

Permite-te a sentir e não te culpes ou julgues pelas tuas emoções.

As fases do luto

Negação — A negação surge como uma forma de proteção contra o impacto emocional do término.
Por norma, nesta fase, quando sabemos do fim da relação, podemos pensar algo como: «Isto não pode estar a acontecer», «Ainda podemos resolver as coisas» ou «Isto vai passar, só precisamos de um tempo».

Raiva — É quando a emoção de raiva surge e pode ser direcionada a ti, à outra pessoa, às circunstâncias ou a outras coisas no geral. Expressar as tuas emoções é importantíssimo. Permite-te a sentir esta raiva. Podes escrever num diário ou fazer exercício físico para libertar a energia de forma saudável, mas não a bloqueies.

Por norma, nesta fase, podes pensar algo como: «Como é que ele/a pode fazer isto comigo?», «Eu fiz tudo por esta relação para nada» ou «Se ele/a tivesse mudado, nada disto tinha acontecido».

Negociação — Esta é a fase em que começas a questionar-te sobre o que é que poderia ser feito de forma diferente. Começas a negociar um cenário alternativo, outras hipóteses. Aqui podes até pensar em formas de como recuperar a relação, pensar muito: «E se...?». Poderá também existir negociação com um Deus ou com o universo, como «Se eu fizer x, y pode acontecer» ou fazeres promessas de mudança para que as coisas voltem a ser como antes. Assim, nesta fase podem surgir pensamentos como: «E se eu tivesse sido mais compreensiva? Talvez não tivéssemos acabado» ou «Se eu mudar isto que ele/a não gostava, talvez ele/a volte para mim».

Depressão — Esta é geralmente a fase em que percebes que «não há mais nada a fazer» e percecionas o fim da relação como definitivo. É usada a palavra «depressão» para descrever a sintomatologia associada (como tristeza profunda, choro, sensação de vazio) e não como uma perturbação mental.

A sintomatologia num processo de luto, numa perda significativa, e, neste caso, no término de uma relação, é natural e expectável, não está nada de errado contigo. Muitas vezes, neste momento, as pessoas à nossa volta tentam que esta fase termine rápido e dizem coisas como: «Anima-te», «Daqui a nada conheces alguém melhor» ou «Esquece essa pessoa», numa tentativa de tirar rapidamente o sofrimento, mas a dor e a tristeza fazem parte e devem ser sentidas. Reprimir estas emoções terá o efeito oposto e irá fazer com que possas ficar mais tempo com esta sintomatologia.

Assim, nesta fase, podem surgir pensamentos como: «Acho que nunca mais vou encontrar alguém como ele/a», «Esta dor é demais, é insuportável» ou, ainda, «Vou ficar sozinha para sempre», podendo existir isolamento.

Livro: "Como reconstruir um coração partido"

Autor: Joana Gentil Martins

Editora: Planeta

Data de Lançamento: 25 de março de 2025

Preço: € 16,90

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Aceitação — Esta fase não significa que estás feliz com o término ou que esqueceste por completo a pessoa com quem estavas ou com quem tinhas uma relação, mas sim que aceitas a realidade de que essa pessoa não faz mais parte do teu dia a dia. A dor nesta fase é menos intensa e começas a voltar à tua rotina ou nova rotina, conseguindo falar do fim do relacionamento com outras pessoas. Na fase da aceitação podem surgir pensamentos como: «Fiquei magoada com o fim, mas agora vejo o que aprendi e o quanto cresci com esta experiência» ou «Fez parte do meu crescimento, agora quero focar-me em mim e em seguir a minha vida».

Como vimos anteriormente, as fases do luto não são lineares nem seguem uma ordem específica, e, embora agora saibas que a dor e as experiências referidas são normais, deixo-te um exercício que pode ser útil em cada fase deste processo de luto.
Identifica em que fase te encontras e executa o exercício que mais te beneficia. Volta a estes exercícios as vezes que forem necessárias, podes fazer e refazer.

Um exercício para cada fase

Fase da negação

  • Escrever sobre o que aconteceu

Nesta fase é importante conectarmo-nos com a realidade do que está a acontecer: o fim de uma relação que foi importante para ti. Assim, sugiro o exercício de escrita, onde deves escrever de forma guiada, com as questões que te deixo em seguida, mas também permitires-te a escrever de forma livre sobre o que sentes. O objetivo é que não julgues ou te culpabilizes por algo que possas sentir ou pensar. Podes fazer este exercício no teu livro, ou, para que tenhas todo o espaço sem restrições, podes escrever numa folha em branco ou num caderno. Caso queiras, podes, no final, rasgar e deitar fora.

De uma forma guiada, responde em texto às seguintes perguntas:

    • O que aconteceu realmente para que a relação terminasse?
    • Já percecionavas que o término estava perto ou foi algo inesperado?
    • Quais foram as razões que levaram ao término?
    • Acreditas que há hipótese de mudar a realidade do término?Porquê?
    • Como é que te sentes em relação ao que aconteceu e como aconteceu?