
Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca e carregou no acelerador para pôr fim à guerra na Ucrânia, os telemóveis não param de tocar como nunca de Washington a Kiev, mas também em Paris, Londres e, até mesmo, Moscovo.
Está a surgir uma "nova diplomacia", "mais direta e espontânea", por trocas "mais frequentes, mais rápidas" entre líderes, afirma um conselheiro do presidente francês.
Enquanto antes um telefonema entre mandatários era organizado antecipadamente e acontecia na presença dos seus colaboradores, hoje pode ser muito menos formal, para desespero da tradicional máquina diplomática.
Embora esse tipo de telefonemas não seja uma novidade, especialmente nos momentos agudos de uma crise, a situação "agora acelerou", segundo Michel Duclos, ex-embaixador francês e especialista do Instituto Montaigne.
"Houve uma mudança de ritmo que provocou uma mudança na natureza das relações", explica à AFP Duclos. Tudo depende também da personalidade de cada líder.
Trump gosta do contacto sem intermediários, enquanto Joe Biden preferia o "processo burocrático" clássico, segundo um ex-diplomata.
Macron, que teorizou a importância diplomática das relações pessoais, explica aos seus interlocutores que o atual homólogo americano tem uma "linha direta" para lhe ligar sem aviso prévio, obrigando-o inclusive a abandonar brevemente uma reunião.
Segundo o seu entorno, também fala "quase todos os dias" com os seus contrapartees ucraniano e americano, assim como com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer.
Paris considera essencial esse funcionamento para tentar influenciar um pouco as decisões de Trump, especialmente quando a Europa e a Ucrânia querem influenciar as conversas entre Washington e Moscovo.
Riscos
Desde o início da invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, Zelensky começou a usar os telefonemas diretos no telemóvel com seu homólogo polaco, Andrzej Duda, para desbloquear "problemas logísticos ou administrativos na fronteira" por onde chegava a ajuda militar ocidental, lembra uma pessoa próxima do presidente ucraniano.
Mas como os conselheiros nem sempre estão presentes para ouvir a conversa, "corre-se o risco de que, se o dirigente não os informar rapidamente, não estejam em sintonia", adverte Duclos.
Ao mesmo tempo, há cada vez menos comunicados a informar o conteúdo das conversas, em benefício das mensagens nas redes sociais, como Trump costuma fazer.
Os telefonemas improvisados através do telemóvel limitam-se, no entanto, a poucos líderes, de modo que os canais "oficiais" seguem em vigor.
Embora o presidente americano tenha dado o seu número ao seu homólogo ucraniano, este nunca o utilizou.
As duas conversas telefónicas entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, em fevereiro e março, que puseram fim ao seu isolamento pelos ocidentais, parece terem seguido o processo diplomático tradicional.
O magnata republicano também se vangloriou de falar com o presidente russo "em várias ocasiões" durante "outras chamadas", das quais não há registo oficial.
Uma conversa apenas entre os dois presidentes "é perigosa", diz Michel Duclos, que teme a capacidade de Putin de "manipular" Trump.
Para Ian Bremmer, presidente do gabinete de análise Eurasia Group, estes contactos informais "são muito positivos se ocorrerem entre dois dirigentes que confiam um no outro, no marco de uma relação estável". Na sua opinião, não é o caso de Donald Trump.
Outro dos problemas com este tipo de comunicação é a confidencialidade. Segundo fontes diplomáticas, os líderes falam frequentemente através de sistemas de mensagens criptografadas.
Mas foi através de uma dessas plataformas, Signal, que um jornalista americano teve acesso por causa de um erro as conversas sobre planos militares secretos entre altos funcionários do governo de Trump, muito criticado por essa falha de segurança.
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