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Beirute, um ano depois

Marta Pedreira Mixão
Marta Pedreira Mixão

Poucos minutos passavam das seis da tarde, do dia 4 de agosto, quando o caos se instalou em Beirute. Uma explosão despedaçou o porto e fez-se sentir por toda a cidade. Por todo o lado, nuvens de poeira. Foi há um ano. Hoje são relembradas as mais de 200 vítimas mortais e os milhares de feridos. O acidente deixou também um rasto de destruição, cerca de 300.000 pessoas desalojadas e danos estimados em milhões de euros.

Um ano depois, pouco aconteceu. A justiça não encontrou responsáveis pela explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amónio, que se encontravam armazenadas no porto há mais de seis anos, sem qualquer precaução. A investigação não determinou oficialmente as causas da explosão, que aconteceu após um incêndio num hangar, que segundo as fontes de segurança terá sido provocado por trabalhos de soldadura. A investigação arrasta-se, dificultada por vários intervenientes políticos libaneses.

Segundo a Amnistia Internacional, as autoridades "atrapalharam descaradamente a procura pela verdade". Um relatório da Human Rights Watch aponta ainda para fortes evidências de que algumas autoridades libanesas teriam conhecimento e aceitaram os riscos letais representados pelo nitrato de amónio armazenado no porto de Beirute.

Um ano depois, a reconstrução da cidade é demasiado lenta e várias áreas continuam destruídas. De acordo com as Nações Unidas, mais de metade da população do país, com cerca de 6,8 milhões de habitantes, vive atualmente abaixo do limiar da pobreza.

Depois de manifestar a sua intenção de visitar o Líbano, o Papa Francisco apelou esta quarta-feira à comunidade internacional para que ajude o país a recuperar com gestos concretos, não apenas com palavras e espera ver resultados positivos da conferência promovida pela França e pelas Nações Unidas.

A ONU avalia que as novas necessidades em alimentação, educação, saúde, reconstrução e saneamento, deverão ser superiores a 295 milhões de euros, valor que era o objetivo da angariação de ajudas de emergência da conferência internacional de doadores para o Líbano — e que, segundo a presidência francesa, foi ultrapassado, visto que a conferência angariou mais de 311 milhões de euros.

Emmanuel Macron referiu que se trata de “voltar a socorrer o povo libanês”, depois de terem sido arrecadados 280 milhões de euros durante a primeira conferência internacional, que decorreu há um ano, cinco dias depois da explosão. O chefe de Estado francês avançou que a França irá doar 100 milhões de euros em ajuda nos próximos meses e que Paris vai enviar 500 mil doses de vacinas contra a doença covid-19 para o território libanês.

A ajuda humanitária acordada é, segundo a presidência francesa, incondicional, não estando sujeita à necessidade de um novo executivo no país, que continua numa situação de instabilidade política. Já o presidente norte-americano, Joe Biden, anunciou hoje uma ajuda suplementar de 84,3 milhões de euros – a somar aos cerca de 472 milhões de euros em ajuda humanitária facultados nos últimos dois anos –, mas pediu reformas profundas, incitando os líderes libaneses a assumirem medidas para reformar a economia do país e combater a corrupção.

O Líbano, nas mãos de um governo interino há quase um ano, passou pela renúncia de dois líderes desde o verão passado devido à falta de consenso político: Mustafa Adib – apenas um mês no cargo – e Saad Hariri – que se demitiu a 15 de julho, depois de nove meses de desentendimentos com o presidente libanês, Michel Aoun.

O novo primeiro-ministro designado – e o terceiro nomeado desde a explosão – Najib Mikati, anunciou, na segunda-feira, que um novo governo só será formado depois do dia de hoje, mas sem avançar datas.

Um ano depois, o Líbano encontra-se mergulhado numa crise socioeconómica, considerada a pior da sua história. A pequena comunidade portuguesa que lá vive relata estar a viver um clima de apreensão, inquietação, sofrimento e incerteza. Uma crise que tem contado ainda com duas agravantes: a pandemia de covid-19 e uma persistente crise política.

Com milhares de edifícios danificados ou destruídos, a reconstrução avança lentamente, financiada pela sociedade civil e comunidade internacional. Por tudo isto, um ano depois, milhares de pessoas saíram à rua em Beirute para reclamar justiça.

As famílias das vítimas e ativistas organizaram manifestações, vigílias à luz de velas e cerimónias religiosas em frente ao porto ou perto do Parlamento, assinalando a data e recordando os bombeiros, funcionários do porto, automobilistas e residentes locais que perderam a vida, quando as janelas estilhaçaram e os tetos ruíram. Um ano depois, pouco aconteceu.

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