São 05:25 quando o despertador toca e não há muito em que pensar: Diogo Lebre sabe é hora de se levantar para começar mais um dia. Cinco minutos depois está na rua, a caminho da piscina, enquanto “come qualquer coisa”.

Às 06:00, quando lá fora o sol ainda dorme, já ele e todos os outros atletas de natação da Secundária de Rio Maior se fazem à água para as primeiras braçadas do dia. Hão de repetir o ritual ao final da tarde, mas antes vêm as aulas, o ginásio à hora de almoço e, claro, as horas de estudo. A rotina é “pesada”, mas este jovem de 17 anos garante, em entrevista à agência Lusa, que “quem corre por gosto não cansa”.

“É um dia muito diferente do de outros colegas da minha idade”, reconhece o jovem, a viver em Rio Maior, mas com raízes em Aveiro. “Há momentos em que sinto falta dos meus pais, mas é algo que temos de ultrapassar. Se queremos mesmo ir longe, temos de abdicar de certas coisas”, diz confiante.

Diogo é um dos 30 alunos que integram a Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola (UAARE) de Rio Maior. Nesta cidade do distrito de Santarém está uma das primeiras UAARE que surgiram no país, onde o Professor Luís Deus tem sido o ‘homem do leme’. O professor acompanhante do projeto UAARE na Escola Secundária Dr. Augusto César da Silva Ferreira conta que este é um desafio de dimensão maior do que possa parecer à primeira vista.

“É um processo complexo, com muitos intervenientes: atletas, pais, professores de apoio, diretores de turma, professores curriculares, treinadores, dirigentes… todos querem a felicidade e sucesso dos alunos/atletas, mas os pais, por exemplo, querem tudo, os professores estão mais preocupados com a parte académica, os treinadores com a parte desportiva, e a minha função é conciliar tudo isto e garantir o sucesso deles”, resume.

Luís Deus sublinha que estes “são jovens com uma verdadeira vida dupla, pois têm 25 horas de aula por semana, mas treinam outras tantas ou às vezes mais”.

“Embora venham para aqui para terem melhores condições de treino, não podemos esquecer que deixam o ambiente familiar e vêm para uma cidade diferente, sem as referências da sua terra. É necessário apoio e têm de ter alguma retaguarda, pois não podemos correr o risco de os jovens fazerem este investimento tão grande no desporto e depois não terem sucesso, nem no desporto nem na escola”, afirma.

Diogo Lebre nem quer ouvir falar de insucesso. Na cabeça tem os Jogos Olímpicos e quer chegar aos tribunais no papel de advogado ou juiz. “Com calma, e com ajuda das pessoas certas, vou conseguir chegar lá”, diz o atleta/estudante, mesmo que demore mais tempo.

O mesmo pensa Ana Sofia Sousa, que aos 16 anos já é detentora de vários recordes nacionais. Deixou Sines para tentar seguir o sonho de fazer uma carreira nas piscinas e só o apoio dos pais a impediu de desistir. Assume que desde que chegou a Rio Maior evoluiu muito e reconhece que integrar o programa UAARE é uma grande mais-valia.

“Como começamos o dia muito cedo, é difícil estar concentrado nas aulas, com a cabeça no lugar certo. Por isso, os apoios proporcionam-nos uma ajuda para entender melhor as matérias. Termos professores disponíveis é muito bom e eles próprios reconhecem que o nosso dia a dia não é fácil”, afirma a nadadora, que frisa que as boas prestações dentro de água ajudam a estar mais controlada no resto do dia.

Este é o terceiro ano do projeto UAARE em Rio Maior. O programa tem vindo sempre a crescer e neste momento acolhe 20 alunos da natação, quatro atletas do triatlo, cinco do atletismo e uma de basquetebol. No total, são 19 deslocalizados de todos os pontos do país que se juntam em Rio Maior, uma cidade que escolheu o desporto como vetor estratégico de desenvolvimento, como explica Luís Deus.

“Sou filho da terra, e Rio Maior fez uma aposta no Desporto desde os anos 90. Começou com os resultados desportivos da Susana Feitor, na marcha atlética, e com o projeto nacional de cadetes de basquetebol em 90/91, que residiu em Rio maior, onde esteve a Ticha Penicheiro e a Mary Andrade. Hoje esse legado está sobretudo entregue à Inês Henriques, mas ao longo dos anos tivemos vários atletas em diversas modalidades. É um orgulho dizer que a nossa escola tem nove atletas olímpicos, que no total contabilizam 28 presenças olímpicas”, relembra o coordenador da UAARE em Rio Maior.

Ainda sem título olímpico, mas a preparar-se para isso nos próximos Jogos, em Tóquio2020, Inês Henriques é uma presença assídua na vida destes jovens. É uma das embaixadoras do programa e elogia as possibilidades que este oferece.

“O apoio que eles têm é fantástico. Eu não tive isso e tive muita dificuldade em conciliar os estudos com o alto rendimento. Eles têm essa possibilidade, e tento sempre transmitir-lhes que é algo fantástico que têm de aproveitar”, defende a campeã do mundo dos 50 km marcha, que dá o seu exemplo como forma de inspiração, mas também de alerta.

“Se souberem aproveitar as oportunidades podem ser melhores atletas, mas tudo isto não cai do céu, e têm de demonstrar que estão a aproveitar. Aqui têm todas as oportunidades para singrar nos dois momentos da vida”, termina.

Ministro da Educação diz que jé é mais fácil conciliar escola e desporto de alto rendimento

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, está satisfeito pelos resultados das Unidades de Apoio ao Alto Rendimento na Escola (UAARE) e acredita que, além do sucesso académico, os alunos/atletas têm agora melhores condições para singrar no desporto.

"Sabemos o quão difícil são as necessidades, muitas vezes conflituantes, entre o que é o sistema educativo, muito desafiador e cheio de vicissitudes, e o sistema de alta competição. O que quisemos foi que existisse conciliação", sublinha o governante.

Em entrevista à agência Lusa, Tiago Brandão Rodrigues revela que o projeto visa não só o alto rendimento desportivo, mas também o alto rendimento escolar.

"Verificámos que havia abandono escolar e um baixo sucesso escolar destes alunos. No entanto, sabemos que atletas de alta competição, quando bem acompanhados, são, potencialmente, muito bons estudantes", afirma o titular da pasta da Educação.

Tiago Brandão Rodrigues destaca os três anos de desenvolvimento do projeto, que hoje conta já com salas de estudo especializadas, professores-mentores, trabalho de grupo, ensino à distância, tudo para que "os alunos possam continuar a fazer desporto de alta competição, mas com uma atenção especial ao seu estudo".

O ministro classifica as UAARE como uma "aposta positiva e vencedora", realçando que a taxa de sucesso escolar está acima dos 90%, mesmo apesar de todas as dificuldades características destes casos.

"São estudantes que passam grandes temporadas fora do país e era importante fazer o seu acompanhamento. Sabemos também que são casos, muitas vezes, de grande pressão familiar para que deixem o desporto de alta competição. O que esta ferramenta nos permite é que esta conciliação possa existir e haver um casamento entre o alto rendimento desportivo e o percurso escolar destes atletas", reforça o ministro, que admite que se trata de um desafio também para as próprias escolas e para toda a comunidade educativa.

No futuro, não muito longínquo, Tiago Brandão Rodrigues acredita que muitos dos atletas a representar as seleções nacionais serão um produto das UAARE.

"Este é um trabalho de longo prazo, um esforço 'maratoniano', um trabalho de adaptação, mas acredito que daqui a uns anos vamos ver já ver muitos ex-alunos das UAARE em Jogos Olímpicos e Jogos Paralímpicos", conclui.

As UAARE são um projeto pedagógico que visa uma articulação eficaz entre a escola, os encarregados de educação, as federações desportivas e seus agentes e os municípios, tendo por objetivo conciliar, com sucesso, a atividade escolar com a prática desportiva de alunos/atletas enquadrados no regime de alto rendimento ou seleções nacionais.